II. Horizonte
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa
Comentário:
Este poema, intitulado Horizonte, começa com uma invocação ao mar (Ó mar anterior a nós) que é um espaço por descobrir e, no entanto, o caminho da viagem. Existe assim uma necessidade de vencer o medo que os navegadores têm no mar desconhecido para poder "Ir mais além", vendo e descobrindo um novo mundo a dominar. No poema está presente a ideia de que o homem necessita de sonhar sendo esta representada pela "observação" do horizonte, espaço idílico (ex: árvore, praia, flor, ave, fonte), ilimitado e lonqínquo tornando-se como um impulso para conhecer.
Sílvia Moreira